Parkinson: descobertas abrem caminho para o desenvolvimento de novos tratamentos

O Parkinson afeta mais de 10 milhões de pessoas em todo o mundo – são mais de 200 mil pessoas apenas no Brasil. É o segundo distúrbio neurológico mais comum depois da doença de Alzheimer. Os sintomas mais conhecidos do Parkinson envolvem as alterações motoras, como tremores, rigidez e lentidão dos movimentos. Mas há também outras manifestações da doença, como depressão, ansiedade, prisão de ventre, alterações intestinais, oscilação da pressão arterial e até sintomas de declínio cognitivo, parecidos com o Alzheimer, em pacientes graves. Nos últimos anos, surgiram tratamentos que aumentaram muito a sobrevida e a qualidade de vida dos pacientes, mas a ciência continua em busca de uma cura.

— Hoje em dia o paciente com Parkinson vive muito melhor do que há 20 anos. A qualidade de vida e a sobrevida melhoraram nas últimas décadas. Hoje é difícil dizer que uma pessoa morre de Parkinson. Ela morre com Parkinson. Mas os tratamentos, por melhores que sejam, atuam apenas nos sintomas. Eles não impedem a progressão da doença ou previnem seu aparecimento — diz o neurologista Henrique Ballalai Ferraz, professor de neurologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Isso pode estar mais perto de acontecer graças a descobertas feitas recentemente que ajudam a esclarecer as causas da doença. Sabe-se que pessoas com Parkinson não têm dopamina suficiente, o que atrapalha as suas funções motoras. A dopamina é um neurotransmissor conhecido por seu papel na sensação bem-estar e motivação, associada ao sistema de recompensa, mas ela também desempenha um papel fundamental no controle do movimento. Em pessoas com Parkinson, a redução no nível dessa substância ocorre em decorrência da morte de células nervosas que produzem dopamina em uma região específica do cérebro chamada gânglios da base, um grupo de núcleos nas profundezas do córtex cerebral.

Essa queda no nível de dopamina interrompe a comunicação entre as células nervosas e leva aos sintomas motores típicos da doença, incluindo tremores, rigidez dos membros e diminuição geral dos movimentos. A deficiência de dopamina também leva a uma ampla gama de sintomas não motores – que podem ser menos visíveis, mas ainda assim são gravemente debilitantes – como declínio cognitivo, depressão, dor, incontinência urinária e constipação. Entretanto, ainda não se sabe o que desencadeia a morte progressiva dessas células.

Nos últimos anos, descobriu-se que uma proteína chamada alfa-sinucleína pode estar envolvida nesse processo. Estudos mostraram que se acumula nesses neurônios produtores de dopamina e isso acaba desencadeando a morte dessa célula. Uma das linhas de tratamento em investigação tem como alvo a interrupção do acúmulo dessa proteína para tentar interromper a progressão da doença. Mas estudos mais recentes apontam para outros alvos.

Novas descobertas

Pesquisadores do Centro Médico da Universidade de Georgetown, nos EUA, identificaram o que parece ser um defeito vascular significativo em pacientes com Parkinson moderadamente grave. De acordo com os pesquisadores, a descoberta sugere que a barreira hematoencefálica, que normalmente atua como um filtro crucial para proteger o cérebro contra toxinas, mas permitir a passagem de nutrientes para nutri-lo, não funciona corretamente em alguns pacientes com a doença. Ela não só impede as toxinas de saírem do cérebro, como inibe a entrada de nutrientes como a glicose e permite que células inflamatórias e moléculas do corpo entrem e danifiquem o cérebro.

De acordo com os autores, o resultado fornece um novo alvo para intervenção terapêutica na doença. “Até onde sabemos, este é o primeiro estudo a mostrar que a barreira hematoencefálica do corpo oferece potencialmente um alvo para o tratamento da doença de Parkinson”, disse Charbel Moussa, autor sênior do estudo, em comunicado.

Outra descoberta inédita, publicada neste mês na prestigiosa revista Nature, mostrou que defeitos no complexo mitocondrial 1 do cérebro, necessário para a sobrevivência dos neurônios que produzem dopamina, geram uma lenta e contínua progressão do Parkinson. O papel das mitocôndrias, organelas responsáveis pela respiração celular, na doença não é novidade. Mas a pesquisa liderada pela Universidade Northwestern, também nos EUA, demonstra pela primeira vez que os neurônios não morrem quando esse complexo falha, eles primeiro começam a funcionar mal e eventualmente morrem. Essa latência entre mal funcionamento e morte abre espaço para um novo campo terapêutico porque permite novas abordagens para resgatar esses neurônios antes que o dano seja irreversível.

 

As técnicas cirúrgicas modernas, como a estimulação cerebral profunda, considerada o maior avanço no tratamento da doença nos últimos 20 anos, é complementar ao tratamento medicamentoso. Foto: Editoria de Arte
As técnicas cirúrgicas modernas, como a estimulação cerebral profunda, considerada o maior avanço no tratamento da doença nos últimos 20 anos, é complementar ao tratamento medicamentoso. Foto: Editoria de Arte

Em busca da cura

Atualmente, o medicamento mais eficaz contra o Parkinson é também o mais antigo. A levodopa, uma molécula substitutiva da dopamina, é a pedra angular do tratamento, de acordo com Ferraz. – Todos os outros tratamentos são auxiliares a esse medicamento – conclui o médico. As técnicas cirúrgicas modernas, como a estimulação cerebral profunda, considerada o maior avanço no tratamento da doença nos últimos 20 anos, visa a mesma área e também é complementar ao remédio. Até mesmo a estimulação cerebral profunda, considerada o maior avanço no tratamento da doença nos últimos 20 anos, é complementar à levodopa e, assim como ela, fornecem apenas alívio nos sintomas, mas não para a progressão da doença. Um estudo publicado na revista Neurology, que acompanhou os resultados de longo prazo do implante, mostrou que ele é capaz de reduzir em 75% os movimentos involuntários nesses pacientes.

Os resultados dessas novas pesquisas ampliam as possibilidades a outros mecanismos e compostos para desacelerar a progressão da enfermidade e reverter seus efeitos. – O que a ciência espera é um tratamento que mude a progressão da doença. Que impeça que ela continue avançando. Tem muita coisa em teste e alguma delas vai trazer algum resultado positivo em breve. Ao menos é o que esperamos – destaca o professor da Unifesp.

As novas linhas de pesquisa envolvem desde medicamentos desenvolvidos originalmente para outras doenças, como leucemia, e neuroestimuladores modernos, capazes de monitorar a atividade cerebral e fornecer dados que ajudem a escolher o melhor tratamento, até probióticos, células-tronco e terapia genética.

O Globo

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