Quadros leves de covid-19 não estimulam produção suficiente de anticorpos, dizem estudos

[São Paulo] – Muito se fala em produção de imunidade contra o novo coronavírus. Um dos meios de se estimular o desenvolvimento de anticorpos é pela tão almejada vacina, mas existem pessoas que já nascem com maior resistência à covid-19, ou que criam as defesas após a infecção, e há outras que, mesmo tendo contato com o vírus, criam poucos ou quase nenhum anticorpo. Segundo especialista, ainda não é possível entender plenamente como funciona a produção de anticorpos contra o novo coronavírus no organismo, porque há casos em que acontece a redução da defesa e há alguns em que a produção de imunidade é baixa, de modo a propiciar a reinfecção, portanto, os estudos não são conclusivos quanto a quem produz mais ou menos respostas imunes.

Em entrevista ao Jornal da USP no Ar, Max Igor Banks, responsável pelo Laboratório de Reinfecção do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, explica que algumas pessoas já nascem com a capacidade de se defender contra o novo coronavírus, mesmo sem nunca ter tido contato. E, quando se fala em mecanismos de defesa, isso geralmente se refere à imunidade adquirida ou adaptativa e essa é moldada pelo organismo para se defender de um patógeno específico, enquanto a imunidade adaptativa é estimulada pela vacina.

Quanto aos casos de reinfecção, o especialista informa que, apesar de ser esperada a covid-19 em sua manifestação mais leve do que no primeiro contágio, tem acontecido o contrário, os casos têm registrado infecção mais intensa no segundo contato com o vírus. Ao todo, foram registrados pelo Hospital das Clínicas da USP cerca de 29 casos de reinfecção por covid-19 e 80% destes tiveram a doença mais intensa do que na primeira vez. O médico compartilha que uma das hipóteses é a baixa ou nenhuma produção de anticorpos no primeiro contágio, o que possibilita a manifestação mais intensa da doença na reinfecção: “Ninguém sabia que teria uma segunda infecção e o que temos visto é que eles têm poucos anticorpos ou nenhum. Pessoas que têm quadros muito leves, muitas vezes, não fazem uma imunidade adequada”. Portanto, “os casos que produzem mais resposta de anticorpo são os mais intensos”.

Ainda não há conclusão quanto à persistência dos anticorpos no organismo, já que há registros de queda. Na visão do professor, mesmo que a queda da defesa imunológica ocorra, uma vez que o indivíduo tenha desenvolvido anticorpos suficientes para combater o novo coronavírus, o organismo guarda como se fosse uma espécie de receita para produções futuras de imunidade protetora, os chamados anticorpos neutralizantes: “A receita de como produzir anticorpos seu corpo já tem, então, se você entrar em contato com o vírus, eles são produzidos rapidamente”. De acordo com o médico, nos casos em que bebês nascem imunes à covid-19 os anticorpos podem ser passados da mãe para o feto, caso ela tenha tido contato com o vírus e produzido resposta imunológica.

Para Banks, a possibilidade dessa produção de forma orgânica muda a lógica das vacinas, porque, ao invés de diversas doses para estimular a produção de anticorpos ao longo dos anos – já que o corpo possui a receita de proteção –, as vacinas devem ser eficientes a ponto de não necessitarem de doses de reforço. “Eu acho que uma vacina que funcionar adequadamente não vai precisar de doses de reforço a cada ano, como se tem para a gripe, por exemplo”, afirma e complementa: “Precisamos de uma vacina que funcione adequadamente. As metodologias de estímulo do sistema imune em cada vacina mudam, então, pode ser que algumas gerem respostas mais fortes e outras mais fracas”.

Fonte: Jornal da USP|Foto: Freepik

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